Na noite deste sábado (21), o Botafogo conquistou o título do Campeonato Paraibano após vencer o Sousa pelo placar agregado de 2 a 1 — ida e volta — nas finais. Após o apito que encerrou a partida, mais de 20 mil torcedores comemoraram o título no Almeidão. Mas, o momento que deveria ser de festa para a torcida do Belo, transformou-se em um momento de tensão nas duas arquibancadas.
Os casos
Dentro do Setor Sombra, um homem que vestia a camisa do Botafogo foi flagrado sacando uma arma de fogo durante uma confusão com outros torcedores — também do Botafogo — que celebravam a conquista de forma efusiva.
Do outro lado do campo, na Arquibancada Sol, onde os ingressos têm valores mais acessíveis para o ‘povão’ e onde ficam as torcidas organizadas do Botafogo, o clima era de alegria e os torcedores ovacionavam a vitória do Alvinegro da Estrela Vermelha com sinalizadores, símbolos da torcida e bandeiras.
O que é mais perigoso: arma de fogo ou sinalizadores?
Diante dessas duas situações, a força policial foi utilizada para conter apenas uma: a comemoração da torcida.
No momento em que o atacante Henrique Dourado, do Botafogo, concedia entrevistas à imprensa após a conquista do título estadual, é possível ver o início da ação da polícia, que abriu o portão de acesso à Arquibancada Sol e utilizou da força excessiva, atirando balas de borracha na direção da torcida do Belo.
O motivo da incursão policial não é aparente nas filmagens. O que podemos observar é um sentimento de felicidade e alívio de uma torcida que, naquele momento, extravasava uma conquista que não vinha desde 2019. Mas por que sempre na direção das torcidas organizadas?
Nota Oficial da TJB (Torcida Jovem do Botafogo-PB)
Através das redes sociais, a TJB publicou uma nota oficial para repudiar o acontecido.
“A Torcida Jovem do Botafogo vem a público manifestar sua indignação com os órgãos de segurança do Estado da Paraíba.
Após um verdadeiro espetáculo nas arquibancadas, marcado pela confraternização e pelo desejo de celebrar, entre amigos, mais um título do nosso clube, os torcedores do Botafogo que ocupavam o setor Sol tiveram, mais uma vez, o seu direito de comemorar interrompido. A festa foi encerrada de forma abrupta, com a evacuação da torcida após inúmeros disparos, sem alvo definido, efetuados pelo efetivo policial presente no estádio — uma conduta completamente desproporcional diante de situações que poderiam ter sido facilmente controladas por outros meios.
Em uma partida que contou com quase 22 mil pagantes, representando uma grande oportunidade de fortalecer o vínculo com o torcedor e desmistificar a violência historicamente associada às arquibancadas, a infeliz surpresa não partiu das torcidas organizadas — frequentemente alvo de críticas —, mas sim da Polícia Militar. Trata-se de uma atuação que, de forma reiterada, tem afastado o torcedor botafoguense dos estádios, em especial do setor Sol. E não foi a primeira, tampouco a segunda vez.
Revistas truculentas, uso indiscriminado de balas de borracha e ações repressivas por parte dos órgãos de segurança apenas evidenciam o despreparo. Enquanto isso, em setores mais elitizados do estádio, há registros de torcedores entrando portando armas — uma situação de risco real e grave — sem que houvesse qualquer reação proporcional por parte das forças de segurança. Trata-se de uma demonstração clara de seletividade e desigualdade no tratamento dentro do mesmo estádio.
A Torcida Jovem do Botafogo não aceitará ser tratada como inimiga. Exigimos respeito, responsabilidade e uma mudança imediata na postura das autoridades. O torcedor não é o problema — o problema é a forma como o Estado escolhe agir.”
O ex-vereador de João Pessoa e bacharel em Direito, Junio Leandro, utilizou a aba de comentários da publicação para demonstrar sua indignação com o caso.
“Quando atiram aleatório na arquibancada sol e dão risada, eles miram na periferia, um tiro de racismo e preconceito. De um lado, um ou outro torcedor que tem na arquibancada às vezes o pouco motivo para sorrir, extravasar sua felicidade, e ao ver seu time ser campeão quer dar um abraço no jogador, treinador, como acontece mundo afora… e é recebido à bala […] Vi crianças sentadas no pescoço dos pais com tiros passando ao lado. Pais chorando, mulheres grávidas, idosos sendo atingidos. Do outro lado, na sombra, pode ir armado, puxar pistola e apontar… que no máximo vão lhe abraçar”, comentou.
O comentário de Junio Leandro traz à tona outra pauta: por que a revista aos torcedores no momento de acesso ao estádio é tão rígida e truculenta no Lado Sol, enquanto no Lado Sombra se pode entrar até armado? Um torcedor comentou nas redes sociais que conseguiu entrar no setor de cadeiras sem passar por revista policial.

Teoria do Direito Penal do Inimigo
A Teoria do Direito Penal do Inimigo, formulada pelo autor alemão Günther Jakobs, propõe a divisão da sociedade entre ´heróis’ e ‘vilões’. Segundo a teoria, os grupos ou indivíduos considerados ‘vilões’ perante a sociedade, seriam privados de seus direitos fundamentais.
O Diretor-Geral da TJB, Alex Macedo, que é formado em Direito, declarou ao podcast Cast Arretado que, neste caso, na falta de um inimigo formal, o Estado criou o seu próprio inimigo: as torcidas organizadas.
“Este foi tema do meu TCC. Na ausência de um inimigo, o Estado cria o seu inimigo. O estádio de futebol é igual uma sociedade, e uma torcida organizada é aquele inimigo que o poder público criou para suprimir os direitos deles”, disse.
Estatuto do torcedor
Consta no Artigo 13. do Capítulo IV do Estatuto do Torcedor que: “O torcedor tem direito a segurança nos locais onde são realizados os eventos esportivos antes, durante e após a realização das partidas”.
No entanto, o torcedor que estava na arquibancada, ainda que distante do epicentro do tumulto, teve este direito ferido por mais uma das falhas observadas neste âmbito da segurança pública: a punição coletiva em detrimento da punição individual.
Para o Campeonato Paraibano de 2026, o MPPB (Ministério Público da Paraíba) solicitou que os estádios José Américo de Almeida Filho (O Almeidão) e o Estádio Governador Ernani Sátyro (O Amigão) implementassem um sistema de reconhecimento facial para acesso às arquibancadas.
Tendo ocorrido, de fato, algum motivo que justifique a ação da polícia neste caso, por que as forças de segurança pública não optaram por utilizar este sistema de identificação facial para encontrar e punir os possíveis desordeiros de forma individual? E os torcedores que nada tinham a ver com a situação? E as mulheres grávidas, crianças e idosos que estavam presentes? Também mereciam ter uma arma apontada em suas direções?
Por fim, de que adiantou mobilizar os clubes para que fosse implantado um sistema tecnológico que prometia mais segurança para o torcedor se os métodos utilizados pelos agentes de segurança pública permanecem os mesmos e contra os mesmos alvos?
Atualização
O MPPB iniciou, nesta segunda-feira (23), uma investigação para identificar o torcedor que sacou a arma de fogo nas arquibancadas do Estádio Almeidão.
O Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor (Nudetor) estipulou um prazo de 72 horas para que o Comando Geral da Polícia Militar identifique o suspeito. A apuração contará com o suporte do sistema de reconhecimento facial do estádio e do banco de dados da empresa organizadora do evento.
Além da identificação individual, o MPPB solicitou informações detalhadas sobre os protocolos de segurança da PM, especificamente sobre o acesso de servidores armados que não estavam em serviço no dia da partida.
Nota oficial emitida pelo Ministério Público
“O Ministério Público da Paraíba, por meio do Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor (Nudetor), informa que instaurou procedimento para identificação e punição no âmbito disciplinar e penal do torcedor que, de acordo com imagens divulgadas na imprensa, se envolveu em confusão e sacou uma arma nas arquibancadas do Estádio José Américo de Almeida Filho, em João Pessoa, durante a partida realizada em 21 de março de 2026, válida pela final do Campeonato Paraibano.
Para tanto, foi solicitado em ofício que o Comando Geral da Polícia Militar da Paraíba encaminhe, no prazo de três dias, identificação do referido torcedor, utilizando o banco de dados da empresa organizadora do evento, bem como da empresa responsável pelo sistema de reconhecimento facial, uma vez que o ingresso na praça esportiva estava condicionado à prévia submissão a esse mecanismo de identificação. O Comando Geral também deve informar sobre o protocolo de segurança adotado pela PM para acesso e guarda de armas de fogo por servidores que não estejam no exercício de suas funções, encaminhando cópia da documentação referente ao registro e acautelamento de armas de fogo apresentados no estádio “Almeidão” na tarde do referido jogo, além do relatório geral referente à partida.
Com a identificação e esclarecimentos necessários, serão adotadas as providências para apuração e aplicação das sanções penais, civis e disciplinares previstas no ordenamento jurídico, por meio dos órgãos de execução ministeriais com atribuições para a persecução de tais medidas.
O MPPB reforça a confiança total e irrestrita nas forças de segurança, especialmente PM e Corpo de Bombeiros, a quem parabeniza pelo trabalho ao longo do campeonato e também na final, que contou com público de mais 20 mil pessoas, sendo os distúrbios verificados no fim do jogo prontamente debelados. E afirma que o episódio grave do torcedor armado será tratado com o rigor da lei, em vista do interesse da coletividade e na garantia da segurança dos torcedores, compromisso inegociável da instituição ministerial.”
Homem que sacou a arma no Lado Sombra
Após todo o ocorrido, que fim levou o homem que sacou uma arma de fogo no meio da torcida?
Segundo a matéria publicada pelo Portal Correio, mesmo com a gravidade das imagens, não foi possível identificar a presença imediata de policiais durante a confusão e, até o momento de publicação desta notícia, o homem segue sem ser identificado oficialmente. Onde estavam os policiais neste momento?
Com a abertura do procedimento do MPPB, a Polícia Militar tem um prazo de três dias para identificar o torcedor.
O Futebol da Paraíba entrou em contato com a assessoria de comunicação da Polícia Militar da Paraíba, mas ainda não obteve resposta sobre uma versão oficial. Entretanto, o espaço segue aberto.





Deixe uma resposta